
INTRODUÇÃO
A
enxaqueca ou migrânea é condição
que varia amplamente tanto em sua intensidade
global como na intensidade de cada crise. Vamos
desenvolver o tema pretendendo mostrar que esforços
têm sido realizados para se medir a gravidade
da moléstia. Veremos também que
a avaliação somente do parâmetro
dor, pode ser uma medida incompleta, que outras
variáveis têm sido estudadas e
quais os resultados que nos mostram o real impacto
da migrânea não só sobre
o indivíduo como para a sociedade como
um todo.
Um
dos maiores avanços na área de
saúde da última década
foi o crescente consenso sobre o valor de se
medir o impacto de uma moléstia na qualidade
vida relacionada à saúde. A opinião
do paciente é fundamental para se avaliar
o resultado do tratamento, entendido por muitos
pacientes como a forma de se obter uma vida
mais “eficaz”, que preserve seu
perfeito funcionamento e bem-estar. Apesar do
paciente ser o melhor juiz, dados referentes
às suas experiências não
são coletados de rotina. Uma das razões
era inexistência de instrumentos válidos
para se medir a qualidade de vida. O desenvolvimento
de instrumentos para aferição
de qualidade de vida trouxe nova dimensão
aos estudos de impacto das doenças, pois
eles permitem uma análise objetiva dos
dados e a comparação entre as
mais diversas culturas, por meio da tradução
e da avaliação destes.A Diminuição
das Capacidades é qualquer restrição
ou falta de capacidade para realizar uma atividade
na maneira considerada normal para o ser humano
(OMS).
Para a enxaqueca, a diminuição
das capacidades devido aos sintomas pode ser
profunda. A intensidade da dor seria o principal
fator, porém não o único.
Há migranosos que, mesmo sem dor intensa,
experimentam altos níveis de diminuição
das capacidades, e outros com dor muito intensa
e sem diminuição de capacidades.
Em um estudo canadense, durante as crises, 77%
dos sofredores têm limitações
de atividade, 50% interrompem suas atividades
e 30% têm de se deitar. Em um estudo de
prevalência nos EUA realizado por Lipton
e Stewart foi avaliado o grau de diminuição
das capacidades provocado pela migrânea-
nenhum:12%; leve ou moderado: 51,3%; intenso/vai
para a cama: 35,5%; não sabem: 1%. Portanto,
86,8% dos pacientes têm diminuição
das capacidades devido a enxaqueca.Como nos
referimos na introdução veremos
também como a Enxaqueca afeta a qualidade
de vida.
Medida
de qualidade de vida
O
amplo espectro que constitui a sensação
de bem-estar inclui o funcionamento físico
e mental, o bem-estar, as limitações
de atividade e a sensação geral
de saúde. Há duas maneiras básicas
para se avaliar a qualidade de vida: 1) as avaliações
genéricas, como, por exemplo, o Shorr-Form
36(SF-36), que proporciona a aferição
da opinião do paciente, comparando o
ônus atribuível a determinada condição
com os de outras moléstias e com pessoas
tidas como saudáveis; 2) as avaliações
de condições específicas,
que permitem aferições para moléstias
específicas ( por exemplo, Migraine Specific
Quality of Life – MSQOF).
Ainda que uma condição crônica,
acreditava-se que entre os ataques da enxaqueca
o paciente apresentava excelente saúde.
Estudos recentes têm mostrado, contudo,
que os migranosos têm significativas limitações
na qualidade de vida em relação
à população saudável
e mesmo quando comparados a outras condições
crônicas.O SF-36, um questionário
para avaliações genéricas
mede os 8 aspectos seguintes da qualidade de
vida:
A. Função do papel físico
(a extensão em que a saúde interfere
com as atividades diárias como o trabalho).
B. Dor (nas 4 semanas prévias).
C. Funcionamento social (extensão em
que a saúde interfere com atividades
sociais).
D. Saúde mental de maneira geral (nas
4 semanas prévias).
E. Funcionamento físico (capacidade de
realizar tarefas mais ou menos básicas,
ex. vestir-se).
F. Percepções gerais da saúde
(como seria taxada a saúde).
G. Vitalidade (energia geral nas 4 semanas prévias).
H. A função do papel emocional
(extensão na qual os problemas emocionais
interferem com a vida diária).
Osterhaus e cols. Utilizaram o Sf-36 para comparar
migranosos com a população saudável
em geral. Migranosos que se classificaram como
moderados , intensos ou muito intensos tiveram
escores inferiores nas medidas de dor, funcionamento
social, função da condição
física, funcionamento físico e
saúde mental do que não- migranosos.
Esses autores compararam também a enxaqueca
com outras moléstias crônicas,
como osteoartrite, diabetes, depressão
e hipertensão arterial sistêmica.
Migranosos apresentaram menores escores, comparáveis
apenas aos dos deprimidos.
Mariano e cols. avaliaram, em 2000, a qualidade
de vida por meio da aplicação
da versão traduzida e validada para a
língua portuguesa do SF-36 (R) em funcionários
de um hospital. Foram comparados os escores
em migranosos com os obtidos pelo grupo- controle,
sem cefaléia. Os resultados são
expostos na figura 1.
Concluindo, podemos dizer que os migranosos
relatam diminuição de seu funcionamento
e de bem-estar tanto quando comparados com pessoas
saudáveis como com outras moléstias
crônicas. A enxaqueca seria, assim, tão
ou mais debilitante quanto outras moléstias
consideradas mais sérias.

Avaliações
de qualidade de vida específicas para
a Enxaqueca(MSQOL).
O
MSQOL é mais recente, porém já
mostrou-se válido e consistente. Foram
avaliados dados dos USA e do Reino Unido a respeito
do número de crises e sua duração.
O produto dessas variáveis fornece o
tempo perdido em determinado período.
Em ambos países houve correlação
inversa entre qualidade de vida avaliada pelo
MSQOL e o tempo perdido devido à Enxaqueca.
Em
suma, podemos dizer que os Enxaquecosos relatam
diminuição de seu funcionamento
e de bem-estar tanto quando comparados com pessoas
saudáveis como com outra moléstias
crônicas. A enxaqueca seria assim, tão
debilitante como outra moléstias consideradas
mais sérias.
Resumindo:
- Medir o
impacto da doença sobre a qualidade
de vida é essencial para quem cuida
de saúde.
- Qualidade
de vida pode ser medida com questionários
genéricos ou específicos.
- Os genéricos
servem para o estudo de diferentes populações
com diferentes moléstias.
- O questionário
genérico mais usado para Enxaqueca
é o SF-36.
- Os Enxaquecosos
relataram significativamente mais dor, maior
restrição para as atividades
diárias, pior estado mental, e funcionamento
social que controles saudáveis.
- Os Enxaquecosos
relataram significativamente mais dor, maior
restrição para as atividades
diárias, pior estado mental, e funcionamento
social que portadores de diabetes, osteo-artrite,
HAS e depressão.
- MSQOL é
promissor como questionário específico.
Efeitos
da Enxaqueca sobre as conquistas na vida e sobre
a vida social e familiar
Já sabemos muito sobre a prevalência
e a sintomatologia da enxaqueca, assim como
seu custo em termos de cuidados médicos
e absenteísmo. Porém, se olharmos
para o indivíduo, que vive um conjunto
único de circunstâncias, veremos
que a enxaqueca afeta também as atividades
sociais e familiares, e esse acometimento pode
levar a problemas no trabalho ou na escola e
a uma possível deterioração
educacional e no trabalho.
Efeitos
nas atividades diárias
No
Canadá, foram estudados os efeitos da
última crise migranosa em trabalhadores:
19% faltaram ao trabalho, 31% cancelaram atividades
familiares e 30% deixaram de participar de atividades
sociais. A duração média
da limitação foi de 8 horas, 77%
referiram limitação de atividades
e 30% necessitaram deitar-se. Nos EUA, 38 milhões
de dias são perdidos pelas donas de casa
por ano, levando a conseqüências
sobre o cuidado das crianças e do lar
difíceis de serem avaliadas. Provavelmente
a natureza imprevisível da moléstia
cause um maior estresse e leve os pacientes
a Ter dificuldades em organizar uma familiar
normal.
Além disso, os migranosos, muitas vezes
não sabendo ou confiando em seu diagnóstico,
apresentam temores. Segundo Blau, os 10 principais
são: 1) tumor; 2) perda de trabalho (inclusive
doméstico);3) intensidade da dor;4) ficar
louco; 5) freqüência ou duração
da crise; 6) interferência com atividades
sociais; 7) efeitos colaterais dos medicamentos;
8) sofrer um “derrame”; 9) “a
cabeça explodir”; 10) ficar cego
definitivamente.
Devido aos motivos expostos, o comportamento
normal dos pacientes modifica-se substancialmente.
Mais de 75% deles evitam supostos desencadeantes,
muitos têm afetado sua decisão
acerca de empregos, evitam situações
sociais e festas que possam desencadear crises.
A enxaqueca diminui significativamente a qualidade
de vida não somente durante os ataques
como também nas remissões, quando
ansiedade, medo e incerteza contribuem para
um gradual retirada da maioria dos contatos
sociais.
Efeitos
da enxaqueca sobre a educação
Breslau
e cols. estudaram 1.007 jovens migranosos. A
maior porcentagem deles não termina o
ensino médio, e a menor porcentagem completa
a universidade. Outros estudos também
indicam que migranosos têm menor desempenho
acadêmico.
Foi estudado em Aberdeen o absenteísmo
escolar por migrânea. Encontrou-se um
média de 2,8 dias/ano (0-80). Além
do mais, migranosos perdiam mais dias (5,0)
por outras doenças que os não-migranosos
(3,7), indicando que os migranosos podem ser
mais vulneráveis, talvez pela ansiedade
dos pais.
Efeitos
da enxaqueca sobre o trabalho
Os
efeitos da enxaqueca sobre a vida profissional
podem ser resumidos no seguinte esquema:
Crises
intensas -> perda de dias de serviço
-> diminuição da produtividade
-> ansiedade -> comportamento de esquiva
->limitação das oportunidades
de trabalho -> diminuição da
renda
->rebaixamento do status socioeconômico.
Estudos europeus mostram que os migranosos perdem,
em média, de um a quatro dias/ ano de
trabalho devido às crises e que trabalham
cerca de oito dias/ ano com dor, quando têm
sua capacidade reduzida em até 60%. Assim,
concluímos que, além do absenteísmo,
também a redução do desempenho
deve ter conseqüências a longo prazo,
alterando as possibilidades de conquistas e
acarretando diminuição de renda.
Von Korff e col propuseram uma classificação
que envolvesse a dor e a limitação
imposta pela crise:
1. Grau I (pouca dor e pouca limitação)
2. Grau II (intensa dor e pouca limitação)
3. Grau III (limitação moderada)
4. Grau IV ( grande limitação)
Usando
esta classificação em um grupo
de 779 pacientes. Cerca de um quarto dos indivíduos
de grau IV estavam desempregados, valor que
cai para 10% para os com grau III, e menos de
5% para graus I e II.
Efeitos
da enxaqueca sobre a renda
Ainda
que existam dados conflitantes, o importante
estudo de Stewart e cols. mostra uma clara relação
invertida entre prevalência de migrânea
e renda familiar. Nos grupos com renda anual
menor que US$ 10.000,00 a prevalência
de enxaqueca é de 60% maior que nos grupos
com renda acima de US$30.000,00. Estudos conduzidos
na Alemanha, Bélgica e Dinamarca não
chegaram a resultado semelhante.Provavelmente
outros fatores possam estar envolvidos, por
exemplo, mulheres que constituem a maioria da
população migranosa, tendem a
ganhar menos que homens, também pessoas
com maior renda podem considerar um sinal de
fraqueza e assim relutarem em admitir ter migrânea.
Resumindo, a migrânea pode causar profundas
alterações emocionais e no estilo
de vida, os pacientes podem desenvolver estratégias
de lidar com a moléstia que o levam a
retirada de atividades familiares e sociais.
A maioria tem temores a respeito da dor.
Os
custos da Enxaqueca para a sociedade
O
conceito de custo de doença vem da percepção
que a moléstia cria um ônus para
o paciente, família e para a sociedade.
Análise do custo de doença tenta
padronizar e quantificar esse ônus e expressá-lo
em termos monetários.
Os custos diretos incluem os cuidados médicos
(diagnóstico, tratamento, medicamento),
outros custos como transporte, equipamentos
especiais. O custo agregado inclui gastos com
pesquisas médicas, treinamento profissional,
construções de edifícios,
e administração de serviços.
Na prática alguns custos são difíceis
de avaliar, por exemplo custos com pesquisas
básicas.
Custos indiretos medem-se em termos de valor
de produção perdida que é
atribuído à enfermidade, incluindo
perdas de vencimentos e estimativa do valor
dos serviços domésticos. A diminuição
de efetividade no trabalho também deve
ser avaliada e mensurada. Outros custos indiretos
incluiriam menores oportunidades de promoção
e educação, o paciente ter que
submeter-se a mudanças de serviço
que não eram pretendidas e o tempo perdido
pelos acompanhantes.
TESTE:
AVALIE O IMPACTO DA ENXAQUECA
Instruções para preencher
o Questionário: Responda as
perguntas abaixo considerando todas as dores
de cabeça que teve durante os últimos
3 meses. Se uma dor de cabeça afetou
mais de uma área de sua vida (por exemplo:
Trabalho e Família),deve ser considerada
mais de uma vez .Caso nenhuma das atividades
não tenha sido afetada durante os últimos
3 meses, deve ser considerado Zero(Se necessário,
recorra a um calendário).
Após somar a pontuação dos itens 1 a 6, e o resultado for:
de 0 a 5, o MIDAS é GRAU I, ou seja, incapacidade mínima
de 6 a 10, o MIDAS é GRAU II, ou seja, incapacidade LEVE
de 11 a 20, o MIDAS é GRAU III, ou seja, incapacidade MODERADA
maior que 20, o MIDAS é GRAU IV, ou seja, incapacidade GRAVE
Com MIDAS maior ou igual a 6 deve se procurar um médico para diagnóstico e tratamento(Clique aqui e veja os médicos especialistas).
Este
teste,MIDAS (MIGRAINE DISABILITY ASSESSMENT),foi
desenvolvido pelo Dr. Richard B.Lipton,Professor
de Neurologia na Faculdade de Medicina Albert
Einstein em Nova York e pelo Dr. Walter F.Stewart,Professor
Associado de Epidemiologia,na Universidade John
Hopkins em Baltimore.
Fonte Livro: “Cefaléias
Primárias: Aspectos Clínicos e
Terapêuticos”.Fernando Ortiz;Edgard
Raffaelli Jr e col.. ( 2ª Edição).
São Paulo: Editora Zeppelini, 2002.

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